Caquexia oncológica refratária e indicação de NPT
1. Apresentação do caso
Paciente: Feminina, 62 anos, com adenocarcinoma de pâncreas estádio IV (metástases hepáticas), em 3ª linha de quimioterapia (FOLFIRINOX prévio com progressão, depois gemcitabina + nab-paclitaxel). Internada por mucosite oral e esofágica grave (graus 3–4) secundária à última infusão, com impossibilidade de deglutição.
Status performance: ECOG 2 (40% do tempo acamada). Expectativa de vida estimada > 3 meses pela equipe de oncologia.
Perda de peso: 29% em 1 ano (14% nos últimos 3 meses) · CB: 19 cm · CP: 25 cm
Albumina: 2,3 g/dL · PCR: 65 mg/L · Força de preensão: 14 kgf (baixa)
2. Diagnóstico de caquexia (critérios Fearon 2011)
| Critério | Limiar | Presente? |
|---|---|---|
| Perda de peso involuntária | > 5% em 6 meses | ✓ (14% em 3 meses) |
| + redução de massa muscular (CP < 31, força < 20 kgf F) | Presente | ✓ |
| + fadiga, anorexia ou inflamação (PCR ↑) | Qualquer um | ✓ (PCR 65) |
Estágio: Caquexia estabelecida (não pré-caquexia; não caquexia refratária ainda — expectativa > 3 meses, performance ECOG ≤ 2).
3. Raciocínio clínico — quando considerar NPT em oncologia
A ESPEN 2021 Oncology recomenda NPT em paciente oncológico quando:
- TGI não funcional OU ingestão oral/enteral inadequada > 7–10 dias em paciente com expectativa de vida razoável e performance preservada
- Paciente com benefício esperado em qualidade de vida ou possibilidade de continuar tratamento oncológico
- Cuidadosa análise benefício-risco compartilhada com paciente e família
Neste caso: expectativa > 3 meses, ECOG 2, mucosite é causa reversível da impossibilidade oral → NPT indicada.
4. Por que não TNE?
- Mucosite esofágica grau 4 com sangramento à tentativa de SNG
- Risco de broncoaspiração por náuseas persistentes
- Expectativa de resolução da mucosite em 10–14 dias — NPT é ponte
A regra "TNE > NPT quando possível" mantém-se, mas aqui a TNE é contraindicada temporariamente pela condição da mucosa.
5. Conduta — início da NPT
Acesso venoso
PICC (cateter central de inserção periférica) — evita cirurgia para implante de Port-a-Cath em paciente frágil; adequado para NPT de duração prevista de 2–3 semanas.
Cálculo da NPT (D1 — fase cautelosa por risco realimentação)
- Meta calórica inicial: 15 kcal/kg = 660 kcal/dia (progressão gradual por 5 dias até 25–30 kcal/kg)
- Proteína: 1,2 g/kg = 53 g/dia (ESPEN recomenda 1,2–1,5 g/kg em oncológicos; > 1,5 se inflamação)
- Carboidrato: 3 mg/kg/min (TIG conservadora), não ultrapassar 5 mg/kg/min
- Lipídios: 0,8–1,0 g/kg/dia — emulsão com ω-3 (SMOFlipid) quando disponível (ESPEN recomenda)
- Hidratação: 30 mL/kg = 1.320 mL total (ajustar com balanço hídrico)
Profilaxia síndrome de realimentação
Tiamina 300 mg EV/dia por 7 dias. Reposição antecipada de P, K, Mg baseline (P 1,9 → correção com fosfato de potássio 20 mmol EV em 12h).
6. Evolução
D1–D3
NPT iniciada sem intercorrências. P sobe para 2,6 em 48h. Glicemia controlada com insulina SC (correção regular). Dor oral em redução com lidocaína viscosa tópica.
D5
Progressão calórica para 25 kcal/kg (1.100 kcal). Mucosite em melhora (grau 2). Paciente começa a tolerar sorvete e gelatina. Início de suplementação oral hiperproteica 200 mL 2×/dia.
D10
Ingestão oral cobre 40% da meta. NPT reduzida para 50% da cota (NPP — nutrição parenteral parcial complementar).
D14
Ingestão oral 70% com suplemento. NPT suspensa e PICC mantido apenas para medicações. Paciente pronta para alta hospitalar aguardando próximo ciclo de QT.
7. Desfecho e prosseguimento
Alta no D15 com peso 46,8 kg (ganho predominantemente hídrico e glicogênico). Plano ambulatorial: suplemento oral hipercalórico/hiperproteico + ω-3 2g/dia + orientação fracionada pequenas refeições. Retorno com oncologia programado em 14 dias para reavaliar retomada da QT.
Em 8 semanas: peso 49,5 kg, ECOG 1, CB 21 cm, retomou 4º ciclo de QT paliativa. Qualidade de vida (FACIT-F) melhorou 6 pontos.
8. Pontos de aprendizado
- NPT em oncologia não é sinônimo de "fim de vida". É ferramenta terapêutica com indicação específica: falha de via enteral + expectativa de vida razoável + benefício clínico.
- Critérios de Fearon ajudam a estadiar caquexia: pré-caquexia, caquexia estabelecida e caquexia refratária têm condutas distintas — a refratária prioriza conforto, não reversão.
- Proteína ≥ 1,2 g/kg sempre em oncológicos (ESPEN). Nunca restrinja proteína "por causa do câncer".
- ω-3 (EPA) em dose terapêutica (≥ 2 g/dia) tem evidência modesta de preservação de massa muscular em caquexia — vale a pena ofertar.
- PICC é custo-efetivo para NPT de curta/média duração (2–6 semanas). Port-a-Cath para uso crônico prolongado.
- Decisão compartilhada não é "perguntar se quer"; é explicar o que esperar, os riscos de cada opção e alinhar com valores do paciente. Documentar.
Referências
- Muscaritoli M, et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer. Clin Nutr. 2021;40(5):2898-2913. DOI: 10.1016/j.clnu.2021.02.005
- Fearon K, et al. Definition and classification of cancer cachexia: an international consensus. Lancet Oncol. 2011;12(5):489-95. DOI: 10.1016/S1470-2045(10)70218-7
- BRASPEN 2019. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente com Câncer. BRASPEN J. 2019;34(Supl 3):2-32.
- Arends J, et al. ESPEN expert group recommendations for action against cancer-related malnutrition. Clin Nutr. 2017;36(5):1187-1196.