Oncologia

Caquexia oncológica refratária e indicação de NPT

Publicado em 22/04/2026 Revisado por Valéria Rhein Morazio — CRN 5430 Leitura: ~9 min
Caso didático fictício Dados criados para fins educacionais. Não substituem avaliação individualizada nem decisão compartilhada com paciente e família.

1. Apresentação do caso

Paciente: Feminina, 62 anos, com adenocarcinoma de pâncreas estádio IV (metástases hepáticas), em 3ª linha de quimioterapia (FOLFIRINOX prévio com progressão, depois gemcitabina + nab-paclitaxel). Internada por mucosite oral e esofágica grave (graus 3–4) secundária à última infusão, com impossibilidade de deglutição.

Status performance: ECOG 2 (40% do tempo acamada). Expectativa de vida estimada > 3 meses pela equipe de oncologia.

Dados na admissão Peso atual: 44 kg · Peso usual: 62 kg (1 ano atrás) · Altura: 1,65 m · IMC: 16,2 kg/m²
Perda de peso: 29% em 1 ano (14% nos últimos 3 meses) · CB: 19 cm · CP: 25 cm
Albumina: 2,3 g/dL · PCR: 65 mg/L · Força de preensão: 14 kgf (baixa)

2. Diagnóstico de caquexia (critérios Fearon 2011)

CritérioLimiarPresente?
Perda de peso involuntária> 5% em 6 meses✓ (14% em 3 meses)
+ redução de massa muscular (CP < 31, força < 20 kgf F)Presente
+ fadiga, anorexia ou inflamação (PCR ↑)Qualquer um✓ (PCR 65)

Estágio: Caquexia estabelecida (não pré-caquexia; não caquexia refratária ainda — expectativa > 3 meses, performance ECOG ≤ 2).

3. Raciocínio clínico — quando considerar NPT em oncologia

A ESPEN 2021 Oncology recomenda NPT em paciente oncológico quando:

  1. TGI não funcional OU ingestão oral/enteral inadequada > 7–10 dias em paciente com expectativa de vida razoável e performance preservada
  2. Paciente com benefício esperado em qualidade de vida ou possibilidade de continuar tratamento oncológico
  3. Cuidadosa análise benefício-risco compartilhada com paciente e família
Decisão compartilhada — não tratar NPT como "obrigação" Em caquexia refratária (expectativa < 3 meses, ECOG 3–4 persistente, falha de 1ª/2ª linha sem novas opções), a NPT não melhora sobrevida nem QoL e pode aumentar sintomas. Cuidados paliativos estruturados são prioridade.

Neste caso: expectativa > 3 meses, ECOG 2, mucosite é causa reversível da impossibilidade oral → NPT indicada.

4. Por que não TNE?

A regra "TNE > NPT quando possível" mantém-se, mas aqui a TNE é contraindicada temporariamente pela condição da mucosa.

5. Conduta — início da NPT

Acesso venoso

PICC (cateter central de inserção periférica) — evita cirurgia para implante de Port-a-Cath em paciente frágil; adequado para NPT de duração prevista de 2–3 semanas.

Cálculo da NPT (D1 — fase cautelosa por risco realimentação)

Profilaxia síndrome de realimentação

Tiamina 300 mg EV/dia por 7 dias. Reposição antecipada de P, K, Mg baseline (P 1,9 → correção com fosfato de potássio 20 mmol EV em 12h).

6. Evolução

D1–D3

NPT iniciada sem intercorrências. P sobe para 2,6 em 48h. Glicemia controlada com insulina SC (correção regular). Dor oral em redução com lidocaína viscosa tópica.

D5

Progressão calórica para 25 kcal/kg (1.100 kcal). Mucosite em melhora (grau 2). Paciente começa a tolerar sorvete e gelatina. Início de suplementação oral hiperproteica 200 mL 2×/dia.

D10

Ingestão oral cobre 40% da meta. NPT reduzida para 50% da cota (NPP — nutrição parenteral parcial complementar).

D14

Ingestão oral 70% com suplemento. NPT suspensa e PICC mantido apenas para medicações. Paciente pronta para alta hospitalar aguardando próximo ciclo de QT.

7. Desfecho e prosseguimento

Alta no D15 com peso 46,8 kg (ganho predominantemente hídrico e glicogênico). Plano ambulatorial: suplemento oral hipercalórico/hiperproteico + ω-3 2g/dia + orientação fracionada pequenas refeições. Retorno com oncologia programado em 14 dias para reavaliar retomada da QT.

Em 8 semanas: peso 49,5 kg, ECOG 1, CB 21 cm, retomou 4º ciclo de QT paliativa. Qualidade de vida (FACIT-F) melhorou 6 pontos.

8. Pontos de aprendizado

  1. NPT em oncologia não é sinônimo de "fim de vida". É ferramenta terapêutica com indicação específica: falha de via enteral + expectativa de vida razoável + benefício clínico.
  2. Critérios de Fearon ajudam a estadiar caquexia: pré-caquexia, caquexia estabelecida e caquexia refratária têm condutas distintas — a refratária prioriza conforto, não reversão.
  3. Proteína ≥ 1,2 g/kg sempre em oncológicos (ESPEN). Nunca restrinja proteína "por causa do câncer".
  4. ω-3 (EPA) em dose terapêutica (≥ 2 g/dia) tem evidência modesta de preservação de massa muscular em caquexia — vale a pena ofertar.
  5. PICC é custo-efetivo para NPT de curta/média duração (2–6 semanas). Port-a-Cath para uso crônico prolongado.
  6. Decisão compartilhada não é "perguntar se quer"; é explicar o que esperar, os riscos de cada opção e alinhar com valores do paciente. Documentar.
Aviso clínico Caso didático. Decisões em oncologia avançada demandam equipe multiprofissional (oncologia, cuidados paliativos, nutrição, enfermagem, psicologia) e diálogo estruturado com paciente e família.

Referências

  1. Muscaritoli M, et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer. Clin Nutr. 2021;40(5):2898-2913. DOI: 10.1016/j.clnu.2021.02.005
  2. Fearon K, et al. Definition and classification of cancer cachexia: an international consensus. Lancet Oncol. 2011;12(5):489-95. DOI: 10.1016/S1470-2045(10)70218-7
  3. BRASPEN 2019. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente com Câncer. BRASPEN J. 2019;34(Supl 3):2-32.
  4. Arends J, et al. ESPEN expert group recommendations for action against cancer-related malnutrition. Clin Nutr. 2017;36(5):1187-1196.