UTI

Choque séptico com falha à TNE precoce

Publicado em 22/04/2026 Revisado por Valéria Rhein Morazio — CRN 5430 Leitura: ~8 min
Caso didático fictício Dados criados para fins educacionais. Não correspondem a paciente real. Não substitui avaliação individualizada nem julgamento clínico.

1. Apresentação do caso

Paciente: Masculino, 68 anos, admitido na UTI vindo do pronto-socorro com diagnóstico de choque séptico de foco abdominal (peritonite secundária por diverticulite perfurada). Pós-operatório imediato de laparotomia exploradora com lavagem de cavidade.

Comorbidades: HAS, DM2 em uso de metformina, dislipidemia.

Medicações relevantes: noradrenalina 0,35 mcg/kg/min, propofol, fentanil, piperacilina-tazobactam, omeprazol EV, insulina regular SC.

Dados na admissão (D1) Peso atual: 82 kg (estimado) · Peso usual: 88 kg · Altura: 1,72 m · IMC: 27,7 kg/m²
Perda de peso: ~7% em 3 meses · APACHE II: 22 · SOFA: 9 · NUTRIC Score: 7 (alto risco)

2. Exames relevantes (D1)

ExameValorReferênciaInterpretação
Lactato4,8 mmol/L< 2Hipoperfusão tecidual
PCR280 mg/L< 5Inflamação sistêmica grave
Albumina2,4 g/dL3,5–5,0Desnutrição + fase aguda
Creatinina2,1 mg/dL0,6–1,3IRA AKIN 2
Glicemia235 mg/dL70–180Hiperglicemia de estresse
Fósforo2,2 mg/dL2,5–4,5Hipofosfatemia — risco síndrome realimentação

3. Triagem e diagnóstico nutricional

Ferramenta aplicada: NUTRIC Score (sem IL-6) = 7 pontos → alto risco nutricional (mortalidade ↑ e benefício demonstrado com terapia nutricional adequada).

Critérios GLIM:

Diagnóstico nutricional: Desnutrição moderada relacionada à doença com inflamação (DRDI) — códigos CID-10 E44.0 + contexto inflamatório agudo.

4. Raciocínio clínico

As diretrizes ESPEN 2023 e BRASPEN 2023 para doente grave recomendam:

Ponto de atenção — síndrome de realimentação Fósforo inicial de 2,2 mg/dL + perda de peso recente + desnutrição crônica configuram risco alto. Reposição de P, K, Mg e tiamina 200–300 mg/dia EV nos primeiros 5 dias.

5. Conduta — D1

6. Evolução

D1 — início

TNE iniciada a 10 mL/h. VRG 120 mL em 6h → aspirado claro, sem distensão, progredido a 20 mL/h.

D2 — intolerância

VRG 280 mL em 6h, bilioso. Distensão abdominal leve. Paciente ainda em noradrenalina 0,4 mcg/kg/min (aumento da dose por instabilidade hemodinâmica). TNE pausada. Glicemia 310 → bomba de insulina.

Decisão clínica: falha à TNE precoce Três critérios para TNP suplementar na doença grave (ESPEN 2023):
  1. TNE contraindicada ou não tolerada por ≥ 5–7 dias em paciente de alto risco nutricional
  2. Impossibilidade de atingir ≥ 60% da meta pela TNE
  3. TGI não funcionante
Com NUTRIC 7 e intolerância persistente, optou-se por iniciar TNP suplementar precoce no D3.

D3 — TNP suplementar

TNP 3-em-1 central iniciada, fornecendo 70% da meta calórica (glicose 2,5 mg/kg/min, AA 1,3 g/kg/dia, lipídios 0,8 g/kg/dia). TNE mantida em nível trófico (10 mL/h) para preservar integridade da mucosa.

D5 — melhora clínica

Noradrenalina reduzida para 0,08 mcg/kg/min. Lactato 1,8. VRG < 150 mL. TNE progredida para 40 mL/h. Albumina 2,6, PCR 180 (queda).

D8 — desmame da TNP

TNE a 70 mL/h (cobrindo 100% da meta calórica e proteica). TNP reduzida e suspensa no D9. Paciente em ar ambiente, aguardando transferência pra enfermaria.

7. Desfecho

Alta da UTI no D12. Transferido para enfermaria em uso de TNE via SNG com progressão para dieta oral assistida no D15. Alta hospitalar no D22, peso 78 kg (perda de 4 kg durante internação — 60% músculo estimado). Orientação de suplementação oral hiperproteica domiciliar e retorno ambulatorial em 15 dias.

8. Pontos de aprendizado

  1. Paciente em choque séptico estabilizado pode receber TNE precoce — vasopressor em dose fixa não é contraindicação absoluta. Critério é perfusão tecidual, não a presença de droga vasoativa isoladamente.
  2. Hipocaloria permissiva na fase aguda (D1–D3) não é subalimentação — é aceitação fisiológica de que o organismo está produzindo energia endógena e sobrealimentar agrava lesão mitocondrial.
  3. NUTRIC ≥ 5 identifica paciente que mais se beneficia da TNP suplementar precoce quando a TNE falha. Baixo risco nutricional pode esperar 7 dias sem prejuízo.
  4. Síndrome de realimentação é subdiagnosticada em UTI. Fósforo < 2,5 + perda de peso = profilaxia obrigatória com tiamina e eletrólitos.
  5. TNE trófica (10 mL/h) durante TNP não é "inútil" — mantém trofismo intestinal, reduz translocação bacteriana e acelera desmame.
Aviso clínico Caso didático com dados fictícios. Decisões devem ser individualizadas — considere sempre contexto clínico, evolução e julgamento da equipe multiprofissional responsável.

Referências

  1. BRASPEN 2023. Diretriz Brasileira de Terapia Nutricional no Doente Grave. DOI: 10.37111/braspenj.diretrizDOENTEGRAVE
  2. Singer P, et al. ESPEN practical and partially revised guideline: Clinical nutrition in the intensive care unit. Clin Nutr. 2023. DOI: 10.1016/j.clnu.2023.07.011
  3. Heyland DK, et al. Identifying critically ill patients who benefit the most from nutrition therapy: the development and initial validation of a novel risk assessment tool. Crit Care. 2011;15(6):R268.
  4. Friedli N, et al. Revisiting the refeeding syndrome: Results of a systematic review. Nutrition. 2017;35:151-160.