Cirúrgico

Síndrome de realimentação em pós-operatório de CA gástrico

Publicado em 22/04/2026 Revisado por Valéria Rhein Morazio — CRN 5430 Leitura: ~7 min
Caso didático fictício Dados criados para fins educacionais. Não correspondem a paciente real.

1. Apresentação do caso

Paciente: Feminina, 58 anos, com diagnóstico de adenocarcinoma gástrico estádio III. Quadro de disfagia progressiva e saciedade precoce há 4 meses, com perda ponderal acentuada. Internada para gastrectomia subtotal + linfadenectomia D2.

Comorbidades: nenhuma relevante.

Status pré-operatório: Ingestão oral < 500 kcal/dia nas últimas 3 semanas, apenas líquidos ralos.

Dados na admissão Peso atual: 42 kg · Peso usual: 56 kg (4 meses atrás) · Altura: 1,60 m · IMC: 16,4 kg/m²
Perda de peso: 25% em 4 meses · CB: 20 cm · CP: 27 cm · Albumina: 2,8 g/dL

2. Triagem e diagnóstico nutricional

NRS-2002: 6 pontos (IMC < 18,5 + perda > 15% + cirurgia de grande porte + ingestão < 25% nas últimas semanas) → alto risco.

Critérios GLIM:

Diagnóstico: Desnutrição grave relacionada à doença oncológica (DRDO).

3. Risco de síndrome de realimentação — critérios NICE

A paciente apresenta critérios maiores múltiplos:

Critério NICE 2006Presente?
IMC < 16 kg/m²Não (16,4)
Perda de peso > 15% em 3-6 meses✓ (25%)
Ingestão < 10 dias✓ (3 semanas quase sem ingestão)
K, P ou Mg baixos antes de realimentarVerificar — P 2,3 mg/dL (↓)

Classificação: risco alto de síndrome de realimentação (≥ 2 critérios maiores OU ≥ 1 maior + hipofosfatemia).

O que é síndrome de realimentação Distúrbio metabólico potencialmente fatal que ocorre quando se reintroduz nutrição (especialmente carboidratos) em paciente muito desnutrido. O pico de insulina causa deslocamento intracelular de fósforo, potássio e magnésio → hipofosfatemia grave, arritmias, insuficiência cardíaca, rabdomiólise e morte.

4. Conduta — protocolo de reintrodução cautelosa

Baseado em NICE 2006, BRASPEN 2023 e ASPEN 2020 consensus on refeeding:

Pré-realimentação (24h antes)

D1 pós-op — início da TNE

Progressão calórica (diretriz ASPEN)

DiaMetaPor que
D1–D25–10 kcal/kgMinimiza pico insulínico
D3–D410–20 kcal/kgProgressão se P/K/Mg estáveis
D5–D720–30 kcal/kgMeta plena atingida
> D730–35 kcal/kgReparo tecidual

5. Evolução — complicação prevista

D2 — hipofosfatemia

P sérico cai para 1,4 mg/dL (grave). K 3,2 mmol/L. Paciente assintomática, mas com ECG mostrando QT prolongado.

Conduta:

D4 — recuperação

P 2,7 mg/dL, K 4,1 mmol/L, Mg 2,0 mg/dL. Progressão calórica retomada com cautela (para 15 kcal/kg/dia).

D7 — meta atingida

30 kcal/kg/dia (1.260 kcal), proteína 1,5 g/kg. Início de dieta oral fracionada + suplemento oral hiperproteico.

D14 — desmame da TNE

Ingestão oral 60% da meta. TNE reduzida gradualmente e suspensa quando oral atingiu 75%.

6. Desfecho

Alta hospitalar no D21. Peso de alta: 43,8 kg (ganho de 1,8 kg, predominantemente compartimento hídrico e reposição de glicogênio). Encaminhada para nutricionista oncológica ambulatorial com plano de 40 kcal/kg/dia + suplementação hiperproteica. Em 3 meses, peso 49 kg, QoL significativamente melhor. Iniciou quimioterapia adjuvante com FLOT.

7. Pontos de aprendizado

  1. Jejum prolongado > 5 dias = rastrear risco de realimentação. Paciente com câncer + disfagia é alvo clássico.
  2. Tiamina ANTES da glicose — sempre. Deficiência súbita pode causar encefalopatia de Wernicke durante a realimentação.
  3. Começar com 5–10 kcal/kg/dia em alto risco não é subalimentação — é proteção. A "subida" para meta plena deve levar 5–7 dias.
  4. Não restrinja proteína. O problema metabólico é do carboidrato. Proteína pode e deve ser plena desde o início (1,2–1,5 g/kg).
  5. Monitorização laboratorial P/K/Mg nas primeiras 72h é inegociável. Hipofosfatemia < 1,0 mg/dL pode matar.
  6. Corrigir antes, não depois. Se P, K ou Mg vierem baixos no exame pré-realimentação, repor ANTES de iniciar a nutrição.
Aviso clínico Protocolo deve ser individualizado. A velocidade de progressão varia conforme tolerância, via de acesso, função renal e cardíaca. Consulte diretrizes atualizadas e avaliação multiprofissional.

Referências

  1. NICE. Nutrition support for adults: oral nutrition support, enteral tube feeding and parenteral nutrition. Clinical guideline CG32. 2006 (update 2017).
  2. BRASPEN 2023. Diretriz Brasileira de Terapia Nutricional no Doente Grave. DOI: 10.37111/braspenj.diretrizDOENTEGRAVE
  3. da Silva JSV, et al. ASPEN Consensus Recommendations for Refeeding Syndrome. Nutr Clin Pract. 2020;35(2):178-195. DOI: 10.1002/ncp.10474
  4. Weimann A, et al. ESPEN practical guideline: Clinical nutrition in surgery. Clin Nutr. 2021;40(7):4745-4761. DOI: 10.1016/j.clnu.2021.03.031