Síndrome de realimentação em pós-operatório de CA gástrico
1. Apresentação do caso
Paciente: Feminina, 58 anos, com diagnóstico de adenocarcinoma gástrico estádio III. Quadro de disfagia progressiva e saciedade precoce há 4 meses, com perda ponderal acentuada. Internada para gastrectomia subtotal + linfadenectomia D2.
Comorbidades: nenhuma relevante.
Status pré-operatório: Ingestão oral < 500 kcal/dia nas últimas 3 semanas, apenas líquidos ralos.
Perda de peso: 25% em 4 meses · CB: 20 cm · CP: 27 cm · Albumina: 2,8 g/dL
2. Triagem e diagnóstico nutricional
NRS-2002: 6 pontos (IMC < 18,5 + perda > 15% + cirurgia de grande porte + ingestão < 25% nas últimas semanas) → alto risco.
Critérios GLIM:
- Fenotípicos: perda > 10% em 6 meses ✓ · IMC < 18,5 ✓ · redução massa muscular ✓
- Etiológicos: ingestão < 50% por > 2 semanas ✓ + inflamação (câncer ativo) ✓
Diagnóstico: Desnutrição grave relacionada à doença oncológica (DRDO).
3. Risco de síndrome de realimentação — critérios NICE
A paciente apresenta critérios maiores múltiplos:
| Critério NICE 2006 | Presente? |
|---|---|
| IMC < 16 kg/m² | Não (16,4) |
| Perda de peso > 15% em 3-6 meses | ✓ (25%) |
| Ingestão < 10 dias | ✓ (3 semanas quase sem ingestão) |
| K, P ou Mg baixos antes de realimentar | Verificar — P 2,3 mg/dL (↓) |
Classificação: risco alto de síndrome de realimentação (≥ 2 critérios maiores OU ≥ 1 maior + hipofosfatemia).
4. Conduta — protocolo de reintrodução cautelosa
Baseado em NICE 2006, BRASPEN 2023 e ASPEN 2020 consensus on refeeding:
Pré-realimentação (24h antes)
- Tiamina 200–300 mg EV/dia por 5–7 dias (ANTES de qualquer carga de glicose)
- Corrigir P, K, Mg baseline
- Complexo B injetável diário
D1 pós-op — início da TNE
- Via: SNE nasojejunal posicionada no intraoperatório (impossibilidade de via gástrica após gastrectomia subtotal)
- Fórmula: polimérica padrão isocalórica 1,0 kcal/mL
- Meta inicial D1: 5–10 kcal/kg/dia = 210–420 kcal ← deliberadamente baixo
- Proteína: 1,2 g/kg = 50 g/dia (não restringir — benefício > risco)
- Volume: iniciar 15 mL/h, progredir 10 mL/h a cada 24–48h se estável
- Hidratação: restringir Na e volume (sobrecarga é comum)
Progressão calórica (diretriz ASPEN)
| Dia | Meta | Por que |
|---|---|---|
| D1–D2 | 5–10 kcal/kg | Minimiza pico insulínico |
| D3–D4 | 10–20 kcal/kg | Progressão se P/K/Mg estáveis |
| D5–D7 | 20–30 kcal/kg | Meta plena atingida |
| > D7 | 30–35 kcal/kg | Reparo tecidual |
5. Evolução — complicação prevista
D2 — hipofosfatemia
P sérico cai para 1,4 mg/dL (grave). K 3,2 mmol/L. Paciente assintomática, mas com ECG mostrando QT prolongado.
Conduta:
- Redução da oferta calórica em 50% (de 10 para 5 kcal/kg/dia) por 24h
- Fosfato de potássio 30 mmol EV em 6h (0,5 mmol/kg em hipofosfatemia grave)
- Monitorização contínua e dosagem de P/K/Mg a cada 6h
- Tiamina EV mantida
D4 — recuperação
P 2,7 mg/dL, K 4,1 mmol/L, Mg 2,0 mg/dL. Progressão calórica retomada com cautela (para 15 kcal/kg/dia).
D7 — meta atingida
30 kcal/kg/dia (1.260 kcal), proteína 1,5 g/kg. Início de dieta oral fracionada + suplemento oral hiperproteico.
D14 — desmame da TNE
Ingestão oral 60% da meta. TNE reduzida gradualmente e suspensa quando oral atingiu 75%.
6. Desfecho
Alta hospitalar no D21. Peso de alta: 43,8 kg (ganho de 1,8 kg, predominantemente compartimento hídrico e reposição de glicogênio). Encaminhada para nutricionista oncológica ambulatorial com plano de 40 kcal/kg/dia + suplementação hiperproteica. Em 3 meses, peso 49 kg, QoL significativamente melhor. Iniciou quimioterapia adjuvante com FLOT.
7. Pontos de aprendizado
- Jejum prolongado > 5 dias = rastrear risco de realimentação. Paciente com câncer + disfagia é alvo clássico.
- Tiamina ANTES da glicose — sempre. Deficiência súbita pode causar encefalopatia de Wernicke durante a realimentação.
- Começar com 5–10 kcal/kg/dia em alto risco não é subalimentação — é proteção. A "subida" para meta plena deve levar 5–7 dias.
- Não restrinja proteína. O problema metabólico é do carboidrato. Proteína pode e deve ser plena desde o início (1,2–1,5 g/kg).
- Monitorização laboratorial P/K/Mg nas primeiras 72h é inegociável. Hipofosfatemia < 1,0 mg/dL pode matar.
- Corrigir antes, não depois. Se P, K ou Mg vierem baixos no exame pré-realimentação, repor ANTES de iniciar a nutrição.
Referências
- NICE. Nutrition support for adults: oral nutrition support, enteral tube feeding and parenteral nutrition. Clinical guideline CG32. 2006 (update 2017).
- BRASPEN 2023. Diretriz Brasileira de Terapia Nutricional no Doente Grave. DOI: 10.37111/braspenj.diretrizDOENTEGRAVE
- da Silva JSV, et al. ASPEN Consensus Recommendations for Refeeding Syndrome. Nutr Clin Pract. 2020;35(2):178-195. DOI: 10.1002/ncp.10474
- Weimann A, et al. ESPEN practical guideline: Clinical nutrition in surgery. Clin Nutr. 2021;40(7):4745-4761. DOI: 10.1016/j.clnu.2021.03.031