Sarcopenia em idosa pós-AVC com disfagia orofaríngea
1. Apresentação do caso
Paciente: Feminina, 80 anos, admitida há 7 dias em UTI neurológica após AVC isquêmico de território de ACM esquerda (trombectomia mecânica em 4h30min do início dos sintomas). Evolui com hemiplegia direita, afasia de expressão e disfagia orofaríngea grau 3 (Dysphagia Outcome and Severity Scale — DOSS).
Comorbidades: HAS, DM2, fibrilação atrial crônica, osteoartrite.
Funcionalidade prévia: vivia sozinha, independente para AVD. Caminhava sem apoio.
CB: 22 cm · CP: 27 cm · AJ: 48 cm
Albumina: 3,0 g/dL · PCR: 22 mg/L · Hb: 11,2 g/dL
2. Avaliação de sarcopenia — EWGSOP2 (2019)
| Etapa | Ferramenta | Resultado |
|---|---|---|
| 1. Rastreio | SARC-F | 8 pontos (≥ 4 = provável sarcopenia) |
| 2. Baixa força | Preensão manual (dinamômetro) | 10 kgf (ponto de corte ♀: < 16 kgf) ✓ baixa |
| 3. Baixa massa muscular | Circunferência da panturrilha | 27 cm (< 33 em ♀ idosa sugere ↓ massa) ✓ baixa |
| 4. Baixo desempenho | Não aplicável (hemiplegia) | — |
Diagnóstico: sarcopenia confirmada (força baixa + massa baixa). Considerando hospitalização e comorbidades → sarcopenia aguda grave (< 6 meses).
3. Avaliação da disfagia
Avaliação clínica fonoaudiológica + teste de deglutição modificado (water swallow test) + videofluoroscopia:
- Aspiração silenciosa com líquidos ralos
- Deglutição eficaz apenas com consistência pudim (IDDSI 4) em pequenos volumes
- Tempo de trânsito oral prolongado
- Fadiga após 5–6 deglutições
Conclusão: disfagia orofaríngea grave com risco alto de pneumonia aspirativa por via oral plena. Indicada TNE enquanto reabilitação.
4. Raciocínio clínico — sarcopenia + disfagia + AVC
A tríade cria um ciclo vicioso:
- AVC → neuroinflamação + imobilização → acelera perda muscular
- Disfagia → ingestão insuficiente → agrava sarcopenia
- Sarcopenia → fraqueza dos músculos orofaríngeos → piora disfagia (sarcopenia-related dysphagia)
A ESPEN 2022 geriatria e consenso brasileiro de sarcopenia recomendam:
- Nutrição adequada (≥ 1,2 g/kg/dia de proteína, até 1,5)
- Suplementação com HMB + leucina (beta-hidroxi-beta-metilbutirato)
- Vitamina D suplementar
- Exercício de resistência precoce (fisioterapia)
5. Conduta
Via de acesso
SNE nasojejunal (disfagia grave + perspectiva de reabilitação em 4–8 semanas). Se evolução desfavorável em 4–6 semanas, avaliar gastrostomia endoscópica (PEG).
Metas nutricionais
- Energia: 30 kcal/kg = 1.560 kcal/dia (idoso com estresse moderado)
- Proteína: 1,5 g/kg = 78 g/dia (alvo sarcopenia + estresse AVC)
- Leucina: 3 g por refeição principal (estimula síntese proteica muscular)
- HMB: 3 g/dia (evidência moderada para preservação muscular)
- Vitamina D: 2.000 UI/dia (suplementação se 25(OH)D < 30 ng/mL)
- Hidratação: 30 mL/kg = 1.560 mL (balanço hídrico atento)
Fórmula prescrita
Polimérica padrão 1,2 kcal/mL com HMB + leucina + vitamina D (disponível comercialmente, específica para sarcopenia). Volume total 1.300 mL/dia ÷ 4 bolos de 325 mL + lavagens.
Reabilitação integrada
- Fonoaudiologia: terapia de deglutição diária (manobras de Mendelsohn, Masako; estimulação térmica)
- Fisioterapia motora: mobilização precoce + exercícios resistidos no hemicorpo não afetado
- Terapia ocupacional: reeducação para AVD adaptadas
6. Evolução
D1–D14
TNE tolerada bem. Albumina sobe de 3,0 → 3,4. Peso estável em 52 kg. Início fisioterapia motora diária. Reavaliação fono no D10: progressão para consistência mel (IDDSI 3) em pequenos volumes supervisionados.
D30 — transição gradual
Deglutição segura com consistência mel + alimentos pastosos. Iniciada alimentação oral assistida 2×/dia (almoço e jantar) + TNE complementar noturna. Força de preensão 13 kgf (+3). CP 28 cm (+1).
D45 — TNE suplementar
Ingestão oral cobre 70% da meta. TNE reduzida a noturna (600 mL, cobrindo 30% restante + hidratação extra).
D60 — desmame da TNE
Deglutição com consistência normal (néctar IDDSI 2) segura. TNE suspensa. Alta hospitalar para reabilitação ambulatorial com dieta pastosa enriquecida + suplemento oral hiperproteico com HMB.
7. Desfecho
Aos 3 meses: peso 54,5 kg (+2,5), força de preensão 16 kgf (dentro da faixa para idosa). SARC-F caiu para 5 pontos. Funcionalidade recuperada parcialmente — consegue se alimentar sozinha com adaptações, deambula com bengala. Vive em casa da filha com cuidador 8h/dia.
8. Pontos de aprendizado
- AVC + idoso = investigar sarcopenia ativamente. SARC-F é rápido e validado; > 4 exige avaliação formal.
- Proteína 1,2–1,5 g/kg/dia em idoso hospitalizado é o padrão atual. Antiga recomendação de 0,8 está desatualizada e é subdose.
- Disfagia orofaríngea grave após AVC afeta 30–50% dos pacientes na fase aguda. Avaliação precoce por fono reduz pneumonia aspirativa em ~60%.
- TNE enquanto reabilita é a ponte, não a destinação final. 40–70% dos pacientes com disfagia pós-AVC recuperam deglutição segura em 2–6 meses com terapia.
- Estimativa de altura pela Chumlea (altura do joelho) é essencial em idosos acamados, com deformidades ou amputações. Não subestime IMC por falta de dados.
- Abordagem multiprofissional (nutrição + fono + fisio + TO) multiplica resultado. Nutrição isolada, sem reabilitação, não reverte sarcopenia.
Referências
- Volkert D, et al. ESPEN practical guideline: Clinical nutrition and hydration in geriatrics. Clin Nutr. 2022;41(4):958-989. DOI: 10.1016/j.clnu.2022.01.024
- Cruz-Jentoft AJ, et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis (EWGSOP2). Age Ageing. 2019;48(1):16-31. DOI: 10.1093/ageing/afy169
- Burgos R, et al. ESPEN guideline clinical nutrition in neurology. Clin Nutr. 2018;37(1):354-396. DOI: 10.1016/j.clnu.2017.09.003
- Fujishima I, et al. Sarcopenia and dysphagia: Position paper by four professional organizations. Geriatr Gerontol Int. 2019;19(2):91-97.
- BRASPEN 2022. Diretrizes Brasileiras em Terapia Nutricional. BRASPEN J. 2022.