Idoso

Sarcopenia em idosa pós-AVC com disfagia orofaríngea

Publicado em 22/04/2026 Revisado por Valéria Rhein Morazio — CRN 5430 Leitura: ~8 min
Caso didático fictício Dados criados para fins educacionais.

1. Apresentação do caso

Paciente: Feminina, 80 anos, admitida há 7 dias em UTI neurológica após AVC isquêmico de território de ACM esquerda (trombectomia mecânica em 4h30min do início dos sintomas). Evolui com hemiplegia direita, afasia de expressão e disfagia orofaríngea grau 3 (Dysphagia Outcome and Severity Scale — DOSS).

Comorbidades: HAS, DM2, fibrilação atrial crônica, osteoartrite.

Funcionalidade prévia: vivia sozinha, independente para AVD. Caminhava sem apoio.

Dados na admissão Peso: 52 kg · Peso usual: 55 kg · Altura (via AJ, Chumlea): 1,58 m · IMC: 20,8 kg/m²
CB: 22 cm · CP: 27 cm · AJ: 48 cm
Albumina: 3,0 g/dL · PCR: 22 mg/L · Hb: 11,2 g/dL

2. Avaliação de sarcopenia — EWGSOP2 (2019)

EtapaFerramentaResultado
1. RastreioSARC-F8 pontos (≥ 4 = provável sarcopenia)
2. Baixa forçaPreensão manual (dinamômetro)10 kgf (ponto de corte ♀: < 16 kgf) ✓ baixa
3. Baixa massa muscularCircunferência da panturrilha27 cm (< 33 em ♀ idosa sugere ↓ massa) ✓ baixa
4. Baixo desempenhoNão aplicável (hemiplegia)

Diagnóstico: sarcopenia confirmada (força baixa + massa baixa). Considerando hospitalização e comorbidades → sarcopenia aguda grave (< 6 meses).

3. Avaliação da disfagia

Avaliação clínica fonoaudiológica + teste de deglutição modificado (water swallow test) + videofluoroscopia:

Conclusão: disfagia orofaríngea grave com risco alto de pneumonia aspirativa por via oral plena. Indicada TNE enquanto reabilitação.

4. Raciocínio clínico — sarcopenia + disfagia + AVC

A tríade cria um ciclo vicioso:

A ESPEN 2022 geriatria e consenso brasileiro de sarcopenia recomendam:

  1. Nutrição adequada (≥ 1,2 g/kg/dia de proteína, até 1,5)
  2. Suplementação com HMB + leucina (beta-hidroxi-beta-metilbutirato)
  3. Vitamina D suplementar
  4. Exercício de resistência precoce (fisioterapia)

5. Conduta

Via de acesso

SNE nasojejunal (disfagia grave + perspectiva de reabilitação em 4–8 semanas). Se evolução desfavorável em 4–6 semanas, avaliar gastrostomia endoscópica (PEG).

Metas nutricionais

Fórmula prescrita

Polimérica padrão 1,2 kcal/mL com HMB + leucina + vitamina D (disponível comercialmente, específica para sarcopenia). Volume total 1.300 mL/dia ÷ 4 bolos de 325 mL + lavagens.

Reabilitação integrada

6. Evolução

D1–D14

TNE tolerada bem. Albumina sobe de 3,0 → 3,4. Peso estável em 52 kg. Início fisioterapia motora diária. Reavaliação fono no D10: progressão para consistência mel (IDDSI 3) em pequenos volumes supervisionados.

D30 — transição gradual

Deglutição segura com consistência mel + alimentos pastosos. Iniciada alimentação oral assistida 2×/dia (almoço e jantar) + TNE complementar noturna. Força de preensão 13 kgf (+3). CP 28 cm (+1).

D45 — TNE suplementar

Ingestão oral cobre 70% da meta. TNE reduzida a noturna (600 mL, cobrindo 30% restante + hidratação extra).

D60 — desmame da TNE

Deglutição com consistência normal (néctar IDDSI 2) segura. TNE suspensa. Alta hospitalar para reabilitação ambulatorial com dieta pastosa enriquecida + suplemento oral hiperproteico com HMB.

7. Desfecho

Aos 3 meses: peso 54,5 kg (+2,5), força de preensão 16 kgf (dentro da faixa para idosa). SARC-F caiu para 5 pontos. Funcionalidade recuperada parcialmente — consegue se alimentar sozinha com adaptações, deambula com bengala. Vive em casa da filha com cuidador 8h/dia.

8. Pontos de aprendizado

  1. AVC + idoso = investigar sarcopenia ativamente. SARC-F é rápido e validado; > 4 exige avaliação formal.
  2. Proteína 1,2–1,5 g/kg/dia em idoso hospitalizado é o padrão atual. Antiga recomendação de 0,8 está desatualizada e é subdose.
  3. Disfagia orofaríngea grave após AVC afeta 30–50% dos pacientes na fase aguda. Avaliação precoce por fono reduz pneumonia aspirativa em ~60%.
  4. TNE enquanto reabilita é a ponte, não a destinação final. 40–70% dos pacientes com disfagia pós-AVC recuperam deglutição segura em 2–6 meses com terapia.
  5. Estimativa de altura pela Chumlea (altura do joelho) é essencial em idosos acamados, com deformidades ou amputações. Não subestime IMC por falta de dados.
  6. Abordagem multiprofissional (nutrição + fono + fisio + TO) multiplica resultado. Nutrição isolada, sem reabilitação, não reverte sarcopenia.
Aviso clínico Caso didático. Avaliação e progressão de dieta em disfagia exigem supervisão fonoaudiológica; protocolo IDDSI padroniza consistências.

Referências

  1. Volkert D, et al. ESPEN practical guideline: Clinical nutrition and hydration in geriatrics. Clin Nutr. 2022;41(4):958-989. DOI: 10.1016/j.clnu.2022.01.024
  2. Cruz-Jentoft AJ, et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis (EWGSOP2). Age Ageing. 2019;48(1):16-31. DOI: 10.1093/ageing/afy169
  3. Burgos R, et al. ESPEN guideline clinical nutrition in neurology. Clin Nutr. 2018;37(1):354-396. DOI: 10.1016/j.clnu.2017.09.003
  4. Fujishima I, et al. Sarcopenia and dysphagia: Position paper by four professional organizations. Geriatr Gerontol Int. 2019;19(2):91-97.
  5. BRASPEN 2022. Diretrizes Brasileiras em Terapia Nutricional. BRASPEN J. 2022.