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Comunicado Institucional — Prescricao de Nutricao Parenteral Regulamentacao

Em conformidade com a legislacao vigente e as diretrizes da BRASPEN 2023 e da RDC ANVISA n.º 503/2021, esclarecemos formalmente quais profissionais de saude possuem habilitacao legal para a prescricao de nutricao parenteral no Brasil.

Medico

Competencia primaria e irrestrita para indicar, formular, monitorar e suspender a terapia nutricional parenteral, conforme o Codigo de Etica Medica e as resolucoes do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Nutricionista

Competencia legalmente reconhecida para prescricao de nutricao parenteral no ambito hospitalar, desde que atuando dentro de uma Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional (EMTN), conforme a Lei n.º 8.234/1991, a Resolucao CFN n.º 390/2006 e a RDC ANVISA n.º 503/2021.

Obrigatoriedade da EMTN — RDC ANVISA n.º 503/2021 A terapia nutricional parenteral deve ser conduzida, obrigatoriamente, no ambito de uma Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional (EMTN), composta minimamente por: Medico (indicacao clinica e prescricao medica), Nutricionista (prescricao dietetica e monitoramento nutricional), Farmaceutico (manipulacao, estabilidade e dispensacao da bolsa de NP) e Enfermeiro (administracao, controle de acesso venoso central e monitoramento do paciente).
Atencao — Ato de Responsabilidade Compartilhada A prescricao de nutricao parenteral nao constitui um ato uniprofissional isolado. A seguranca e a eficacia da terapia nutricional parenteral dependem da atuacao integrada da EMTN, com responsabilidades tecnicas claramente delimitadas para cada membro da equipe. A ausencia de qualquer um dos profissionais previstos na legislacao configura irregularidade no servico de terapia nutricional. (BRASPEN 2023; ESPEN 2023; RDC ANVISA n.º 503/2021)
Paciente de Referencia — Exemplo Clínico
Paciente: Homem, 58 anos, 70 kg, altura 1,72m, IMC 23,7 (eutrofico)
Diagnóstico: Pós-operatório de cirurgia abdominal de grande porte
Indicação de NPT: Trato gastrointestinal não funcionante, impossibilidade de terapia enteral por mais de 7 dias
Meta energética: 25 kcal/kg/dia = 1.750 kcal/dia | Meta proteica: 1,5 g/kg/dia = 105 g/dia
1
Definir a Necessidade Energética Total (NET) Macronutrientes

O primeiro passo e calcular quantas calorias o paciente precisa por dia. Na impossibilidade de calorimetria indireta, usa-se a regra de bolso como estimativa.

Regra de bolso — adulto hospitalizado
NET = 25–30 kcal × Peso (kg) (fase estavel)
Fase aguda UTI: 15–20 kcal/kg/dia. Obeso critico: 11–14 kcal/kg peso atual. Idoso: 27–30 kcal/kg/dia. (BRASPEN 2023)
Exemplo Clínico
Paciente 70 kg, pós-operatório: 70 kg × 25 kcal = 1.750 kcal/dia
Inicio gradativo — oferta progressiva Iniciar com 50% da meta nas primeiras 24 a 48 horas. Progredir para 100% em 48 a 72h se sem anormalidades eletroliticas ou hiperglicemia. (BRASPEN 2023; ASPEN 2022)
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Calcular Aminoácidos (Proteina) Macronutrientes

Os aminoácidos sao calculados primeiro pois a oferta proteica e prioritaria clínicamente. Cada grama de aminoácido fornece 4 kcal. As solucoes de aminoácidos disponíveis variam entre 5% e 15% de concentracao; a mais comum e a de 10%.

Formula
g proteina/dia = 1,2–2,0 g × Peso (kg)
Volume de solução AA 10%: g proteina ÷ 0,10 = mL necessarios. Cada 100 mL de AA 10% fornece 10g de proteina = 40 kcal.
Calorias proteicas
kcal proteicas = g aminoácidos × 4 kcal
Exemplo Clínico
Meta proteica: 70 kg × 1,5 g = 105 g AA/dia
Calorias proteicas: 105 g × 4 kcal = 420 kcal
Volume de solução AA 10%: 105 ÷ 0,10 = 1.050 mL
Condição ClínicaProteina (g/kg/dia)Peso de referencia
UTI fase aguda1,2–1,5Ajustado
UTI fase estavel1,3–2,0Ajustado
Pós-operatório1,2–1,5Ajustado
Obeso critico2,0–2,5Ideal
IRA sem diálise0,8–1,0Ajustado
Hemodiálise1,2–1,5Ajustado
3
Calcular Lipideos (Emulsao Lipidica) Macronutrientes

Os lipideos fornecem 9 kcal por grama e devem representar 20 a 35% do VET. A emulsao lipidica mais utilizada e a de 20% (20g de lipidio por 100 mL = 200 kcal/100 mL).

Formula
g lipidios = (NET × 25–35%) ÷ 9 kcal
Limite: 1–2 g/kg/dia. Não ultrapassar 2,5 g/kg/dia. Velocidade maxima de infusão: 0,1 g/kg/hora. Volume de emulsao 20%: g lipidios ÷ 0,20 = mL.
Exemplo Clínico
Lipideos = 30% do VET: 1.750 × 0,30 = 525 kcal lipidicas
Gramas: 525 ÷ 9 = 58,3 g lipidios (0,83 g/kg — dentro do limite)
Volume de emulsao 20%: 58,3 ÷ 0,20 = 291 mL
Aténção — hipertrigliceridemia Monitorar triglicerídeos séricos antes de iniciar a emulsão lipídica e semanalmente. Não iniciar se TG > 400 mg/dL antes do início. Suspender se TG subir acima de 400 mg/dL durante a infusão. Reduzir dose se TG entre 200–400 mg/dL. Em pancreatite aguda grave, avaliar individualmente o uso de emulsao lipidica. (ASPEN 2022)
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Calcular Glicose (Carboidrato) Macronutrientes

A glicose fornece 4 kcal por grama e deve cobrir o restante das calorias após subtrair proteínas e lipideos. E o componente que mais contribui para a osmolaridade da bolsa. A solução mais utilizada e a glicose 50%.

Formula
kcal glicose = NET − kcal proteicas − kcal lipidicas
g glicose = kcal glicose ÷ 4 kcal
Recomendação: 45–60% do VET | 3–5 g/kg/dia. Limite máximo: 7 g/kg/dia. Volume de glicose 50%: g glicose ÷ 0,50 = mL.
Taxa de Infusão de Glicose (TIG)
TIG (mg/kg/min) = g glicose × 1000 ÷ (peso × 1440)
Meta recomendada: 3–5 mg/kg/min. Limite absoluto: 7 mg/kg/min (nunca ultrapassar). Acima de 5 mg/kg/min aumenta risco de hiperglicemia e esteatose hepática. (BRASPEN 2023; ASPEN 2022)
Exemplo Clínico
kcal glicose: 1.750 − 420 − 525 = 805 kcal
g glicose: 805 ÷ 4 = 201,3 g (2,88 g/kg — dentro do limite)
Volume de glicose 50%: 201,3 ÷ 0,50 = 402,5 mL
TIG: 201.300 ÷ (70 × 1440) = 1,99 mg/kg/min (dentro do limite)
Controle glicemico — meta 140-180 mg/dL Hiperglicemia e a complicacao metabólica mais comum da NPT. Monitorar glicemia de 4 a 6 horas nas primeiras 48h. Insulina pode ser adicionada diretamente na bolsa ou administrada em infusão continua separada. (BRASPEN 2023; ASPEN 2022)
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Eletrolitos Eletrolitos

Os eletrolitos sao adicionados conforme dosagem serica atual do paciente. As recomendacoes abaixo sao doses padrao para pacientes estaveis — ajustar individualmente conforme laboratorio. Iniciar sempre pelo fosforo, pois sua fonte carrega potassio ou sodio acoplado.

EletrolitoDose padrao/diaFonte mais comumObservacao
Sodio (Na+) 1–2 mEq/kg/dia Cloreto de sodio 20%
1 mL = 3,4 mEq Na+
Ajustar conforme natremia. Descontar Na+ carreado pelo fosfato.
Potassio (K+) 1–2 mEq/kg/dia Cloreto de potassio 19,1%
1 mL = 2,56 mEq K+
Descontar K+ carreado pelo fosfato de potassio.
Calcio (Ca2+) 10–15 mEq/dia Gluconato de calcio 10%
1 mL = 0,46 mEq Ca2+
Não misturar diretamente com fosfato — risco de precipitacao.
Magnesio (Mg2+) 8–20 mEq/dia Sulfato de magnesio 50%
1 mL = 4 mEq Mg2+
Monitorar em IRA e sindrome de realimentacao.
Fosforo (P) 20–40 mmol/dia Fosfato de potassio ou glicerofosfato de sodio
1 mL Fosfato K = 1,1 mmol P + 2 mEq K+
Calcular primeiro. Descontar cation carreado do total de Na+ ou K+.
Sindrome de Realimentacao — aténção especial ao fosforo Em pacientes em risco (desnutrição grave, jejum prolongado, alcoolismo), monitorar fosforo, potassio e magnesio nas primeiras 72h. Hipofosfatémia grave pode causar insuficiencia respiratoria e arritmias. Iniciar NPT com 50% da meta e progredir gradualmente. (BRASPEN 2023)
Exemplo Clínico — Eletrolitos para paciente 70 kg
Fosforo: 30 mmol/dia via fosfato de potassio = 27,3 mL (carrega 60 mEq K+)
Potassio total: 70 × 1,5 = 105 mEq — descontar 60 mEq do fosfato = 45 mEq restantes via KCl
Sodio: 70 × 1,5 = 105 mEq via NaCl 20% = 30,9 mL
Calcio: 12 mEq via gluconato de calcio 10% = 26,1 mL
Magnesio: 10 mEq via sulfato de magnesio 50% = 2,5 mL
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Micronutrientes — Vitaminas e Oligoelementos Micronutrientes

Micronutrientes sao adicionados diariamente a bolsa de NPT. Na maioria dos hospitais brasileiros, estao disponíveis como ampolas padronizadas de multivitaminico e oligoelementos. Em condições específicas, doses adicionais podem ser necessarias.

MicronutrienteDose padrao NPT/diaCondição com dose aumentada
Multivitaminico1 ampola padrao/diaVerificar composição da ampola institucional
Vitamina C100 mg/diaQueimados: 1–3 g/dia (primeiras 24h)
Vitamina D200–400 UI/diaDeficiencia: 600–800 UI/dia
Tiamina (B1)1,2 mg/diaSindrome de realimentacao: 100–300 mg IV antes de iniciar NPT
Zinco2,5–5 mg/diaQueimados, diarreia grave: 12,2 mg/dia
Selenio20–60 mcg/diaCritico grave, sepse: até 500 mcg/dia
Cobre0,3–0,5 mg/diaQueimados: dose aumentada conforme perdas
Oligoelementos1 ampola padrao/diaVerificar composição da ampola institucional
Tiamina — prioridade na sindrome de realimentacao Prescrever tiamina IV (100–300 mg/dia) antes do inicio da NPT em pacientes de risco. A deficiencia de tiamina durante a reintroducao de carboidratos pode causar encefalopatia de Wernicke. (BRASPEN 2023; ESPEN Micronutrients 2022)
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Calcular Volume Final da Bolsa Volume

O volume final e a soma de todos os componentes. Deve ser compativel com a necessidade hidrica diaria do paciente (30–35 mL/kg/dia para adultos; 25–30 mL/kg/dia para idosos).

Volume total da bolsa
Volume total = mL AA + mL glicose + mL lipidios + mL eletrolitos + mL agua para injecao
Agua para injecao (API) e usada para completar o volume até a necessidade hidrica calculada.
Exemplo Clínico — Composição final da bolsa
AA 10%: 1.050 mL (105 g proteina)
Glicose 50%: 402,5 mL (201,3 g glicose)
Emulsao lipidica 20%: 291 mL (58,3 g lipidios)
Eletrolitos: aproximadamente 90 mL
Micronutrientes: aproximadamente 20 mL
API para completar volume: volume restante até meta hidrica
Volume total estimado: aproximadamente 1.850–2.100 mL/24h
Meta hidrica 70 kg: 70 × 30 = 2.100 mL/dia
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Osmolaridade e Definição da Via Via de Acesso

A osmolaridade determina se a NPT pode ser administrada por via periferica ou se exige acesso venoso central. Existem duas formulas na literatura — ambas sao estimativas, e os valores podem diferir.

Formula 1 — Coeficientes Osmóticos (Mirtallo et al., JPEN 2004)
Osm = [5 × g glicose] + [10 × g AA] + [0,71 × g lipidios] + [1 × mEq eletrolitos]
Fonte: adaptada de literatura de prescrição de NPT. Mais simples e amplamente utilizada na prática clínica brasileira.
Formula 2 — Nutrimed / Cálculo Detalhado
Osm = [(g AA × 11) + (g glicose × 5,5) + (g lipidios × 0,3) + (soma mEq cationes)] × 1000 ÷ volume (mL)
Formula alternativa que considera o volume total da bolsa. Pode gerar resultado diferente da Formula 1 — ambas sao estimativas. Usar consistentemente uma das formulas no mesmo servico.
Por que as duas formulas dao resultados diferentes? A Formula 1 calcula osmoles totais sem dividir pelo volume final — e uma estimativa direta em mOsm/L assumindo volume padrao. A Formula 2 normaliza pelo volume total da bolsa, podendo resultar em valor menor ou maior dependendo do volume prescrito. Recomenda-se adotar uma formula padrao conforme protocolo institucional e manter consistencia nas prescricoes.
Definição da via — limite de osmolaridade
Via periferica: osmolaridade menor que 900 mOsm/L
Via central: osmolaridade maior ou igual a 900 mOsm/L
Acima de 900 mOsm/L, o risco de flebite e trombose venosa por via periferica e elevado. Acesso central (PICC, subclavea, jugular) e obrigatório.
Exemplo Clínico — Formula 1
Osm = (5 × 201,3) + (10 × 105) + (0,71 × 58,3) + (1 × 265)
Osm = 1.006,5 + 1.050 + 41,4 + 265 = 2.362,9 mOsm/L
Conclusao: Acesso central obrigatório

Referências Bibliográficas

  • Castro MG, Ribeiro PC, Matos LBN, et al. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN Journal. 2023;38(2 Supl 2). DOI: 10.37111/braspenj.diretrizDOENTEGRAVE
  • Compher C, Bingham AL, McCall M, Patél J, Rice TW, Braunschweig C, McKeever L. Guidelines for the provision of nutrition support therapy in the adult critically ill patient: The American Society for Parenteral and Enteral Nutrition. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2022;46(1):12-41. DOI: 10.1002/jpen.2267
  • Berger MM, Shenkin A, Schweinlin A, Amrein K, et al. ESPEN micronutrient guideline. Clínical Nutrition. 2022;41(6):1357-1424. DOI: 10.1016/j.clnu.2022.02.015
  • Choban P, Dickerson RN, Malone A, et al. ASPEN Clínical Guidelines: Nutrition Support of Hospitalized Adult Patients With Obesity. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2013;37(6):714-744. DOI: 10.1177/0148607113499374
  • Mirtallo J, Canada T, Johnson D, et al. Safe Practices for Parenteral Nutrition. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2004;28(6 Suppl):S39-S70. DOI: 10.1177/0148607104028006S39
  • Ministerio da Saude. Manual de Terapia Nutricional na Aténção Especializada Hospitalar no ambito do SUS. Brasilia: MS, 2016.
  • Singer P, Blaser AR, Berger MM, et al. ESPEN practical and partially revised guideline: Clínical nutrition in the intensive care unit. Clínical Nutrition. 2023;42(9):1671-1689. DOI: 10.1016/j.clnu.2023.07.011
Aviso clínico: Este guia tem fins exclusivamente educativos. O cálculo e a prescrição de NPT devem ser realizados por equipe multiprofissional habilitada (nutricionista, médico e farmaceutico), com monitoramento laboratorial diario e ajuste individualizado. NutriHospitalar por Evelin Ribeiro — Nutrição Clínica Hospitalar.
Aviso importante Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e acadêmica. Nenhuma informação deste site substitui avaliação nutricional individualizada, prescrição dietética ou conduta clínica realizada por nutricionista habilitado e registrado no CRN. Adaptações ao contexto clínico de cada paciente são de responsabilidade do profissional assistente.