Por que a Nutrição e Diferente no Paciente Ventilado
ConceitovO paciente em ventilação mecânica (VM) encontra-se em um estado de estresse metabólico intenso, com hipercatabolismo, perda acelerada de massa muscular e demanda nutricional elevada. A nutrição adequada e parte fundamental do suporte intensivo — nem a subalimentação nem a superalimentação são toleradas neste contexto.
Consequências da Subalimentação
- Fraqueza dos músculos respiratórios (diafragma)
- Dificuldade de desmame ventilatório
- Aumento da taxa de infecção pulmonar e sistemica
- Maior tempo de VM e de UTI
- Piora da imunidade e cicatrização
- Risco de falência respiratória por desnutrição
Consequências da Superalimentação
- Aumento da produção de CO2 (hipercapnia)
- Dificuldade de desmame por carga ventilatória elevada
- Hiperglicemia por excesso de glicose
- Esteatose hepática e colestase
- Hipertrigliceridemia
- Sobrecarga volumetrica e edema pulmonar
Fases Metabolicas e Metas por Fase
FasesvA doença critica evolui em fases metabólicas distintas. A oferta nutricional deve ser adaptada a cada fase — o que é adequado na fase aguda pode ser insuficiente na recuperação, e vice-versa. A BRASPEN 2023 recomenda progressão gradual da oferta respeitando essas fases.
- Hipocaloria permissiva intencional
- Proteína: 1,2 g/kg/dia
- Resposta inflamatoria intensa
- Resistência a insulina elevada
- Autophagia como mecanismo protetor
- Iniciar TNE precoce em 24-48h
- Progredir oferta energética
- Proteína: 1,3-2,0 g/kg/dia
- Estabilidade hemodinâmica atingida
- Anabolismo comeca a predominar
- Meta: 80% das necessidades
- Calorimetria indireta ideal
- Meta calórica plena ou aumentada
- Proteína: até 2,5 g/kg/dia
- Foco em recuperação de massa magra
- Avaliação para desmame VM
- Reabilitação fisica + nutrição
- Iniciar transição para via oral
Quociente Respiratório (QR) e sua Relação com a Nutrição
QRvO Quociente Respiratório (QR) e a relação entre o volume de CO2 produzido e o volume de O2 consumido (VCO2/VO2). E um indicador do substrato energético predominantemente oxidado e tem importância direta no manejo ventilatório — quanto maior o QR, maior a produção de CO2 e maior a demanda sobre o sistema respiratório. (Silva et al., in: Waitzberg DL, 2018; Nutritotal PRO, 2023)
| Situação Clínica | QR Esperado | Conduta Nutricional |
|---|---|---|
| Jejum prolongado / subnutrição | 0,70 - 0,75 | Iniciar nutrição com progressão gradual |
| Dieta equilibrada / sem estresse | 0,80 - 0,87 | Manter oferta atual |
| Excesso de carboidratos | 0,90 - 1,00 | Reduzir glicose; aumentar proporção de lipideos |
| Superalimentação / lipogenese | Maior que 1,00 | Reduzir oferta calórica total urgentemente |
| Hipercapnia por excesso de CHO | Maior que 1,00 | Aumentar lipideos; considerar formula pulmonar |
Oferta Proteica e Musculo Respiratório
ProteínavA musculatura respiratória - especialmente o diafragma - e altamente vulnerável ao catabolismo do paciente critico. A perda de massa muscular respiratória e um dos principais determinantes do insucesso no desmame da VM. A oferta proteica adequada e a intervenção nutricional mais impactante neste contexto.
Efeitos da Oferta Proteica Adequada
- Preservação da massa e forca do diafragma
- Manutenção da função imunologica
- Cicatrização e recuperação tecidual
- Redução do tempo em VM
- Menor perda de massa magra
- Melhor tolerância ao desmame
Monitoramento da Oferta Proteica
- Balanco nitrogenado: meta balanco positivo
- Ureia urinária de 24h (quando disponível)
- Pre-albumina: marcador de resposta a TN
- Avaliação funcional: forca de preensão palmar
- Ultrassom muscular: espessura do diafragma
- Registrar adequação proteica diariamente
Via de Acesso e Posicionamento em VM
AcessovA via de acesso enteral e o posicionamento do paciente são aspectos criticos na nutrição do paciente ventilado. A VM aumenta o risco de broncoaspiração e pneumonia aspirativa, tornando os cuidados de posicionamento ainda mais importantes.
| Situação | Via Preferencial | Justificativa |
|---|---|---|
| VM sem gastroparesia | SNG ou SOG (gástrica) | Via padrao. Mais facil posicionamento e progressão. |
| VM com gastroparesia | SNE pos-pilorica (jejunal) | Menor risco de refluxo e aspiração. Indicar proicineticos antes. |
| APACHE II elevado | Considerar SNE pos-pilorica | Alto risco de intolerância gástrica em pacientes mais graves. |
| VM em posição prona | SNE pos-pilorica preferencial | Menor risco de broncoaspiração na mudança de decubito. |
| VM prolongada (mais de 21 dias) | Avaliar gastrostomia | Maior conforto e menor risco de sinusite por sonda nasal prolongada. |
Paciente em Posição Prona - Cuidados Nutricionais
PronavA posição prona e indicada em pacientes com SDRA grave (PaO2/FiO2 menor que 150 mmHg) e melhora a oxigenação ao redistribuir o fluxo sanguíneo pulmonar. Do ponto de vista nutricional, exige cuidados específicos para prevenção de aspiração e manutenção do aporte enteral. (RMMG, 2017; Nutritotal PRO - Parecer BRASPEN, 2020)
Cuidados com a TNE na Prona
- Pausar a dieta enteral antes da movimentação (avaliar protocolo institucional)
- Retomar após estabilização da posição prona
- Preferir via pos-pilorica (SNE jejunal) para menor risco de aspiração
- Manter cabeceira elevada mesmo em prona (posição reversa de Trendelenburg)
- Monitorar VRG com mais frequência
- Usar bomba de infusão continua - nunca bolus ou gravitacional
Nutrição Parenteral em Prona
- A NPT NAO deve ser pausada durante a movimentação para prona
- Verificar permeabilidade e fixação do cateter antes da movimentação
- Proteger o cateter durante a rotação para evitar tração
- Monitorar sitio de inserção após cada movimentação
SDRA - Cuidados Nutricionais Especificos
SDRAvA Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) e uma das condições mais graves do paciente ventilado, caracterizada por hipoxemia refrataria, redução da complacência pulmonar e infiltrado bilateral. Pacientes com SDRA apresentam gasto energético elevado e necessidades nutricionais específicas. (Estrategia Med; Rev. Contemporanea, 2025)
Objetivos da TN na SDRA
- Prevenir e tratar desnutrição
- Preservar músculo respiratório
- Modular resposta inflamatoria
- Evitar sobrecarga ventilatória por QR elevado
- Minimizar sobrecarga hídrica
Metas na SDRA
- Energia: 20-25 kcal/kg/dia (hipocaloria permissiva na fase aguda)
- Proteína: 1,3-2,0 g/kg/dia
- Limitar TIG abaixo de 5 mg/kg/min
- Formulas com menor teor de CHO se hipercapnia
- Balanco hídrico zero ou negativo
O que Evitar na SDRA
- Superalimentação calórica
- Excesso de carboidratos (QR elevado)
- Sobrecarga de volume hídrico
- Suplementação rotineira de antioxidantes em doses altas
- Suspender TNE sem indicação precisa
Nutrição e Desmame Ventilatório
DesmamevO desmame ventilatório e o processo de transição da ventilação mecânica para a respiração espontanea. A nutrição tem papel direto no sucesso do desmame — tanto a subnutrição (fraqueza muscular) quanto a superalimentação (aumento do CO2) podem causar falha. (Brazilian Journal of Development, 2023)
| Fator Nutricional | Impacto no Desmame | Conduta |
|---|---|---|
| Déficit proteico | Fraqueza diafragmatica, fadiga muscular, falha no TRE | Garantir 1,3-2,0 g proteína/kg/dia na fase pos-aguda |
| Superalimentação carboidratos | QR elevado, hipercapnia, aumento da demanda ventilatória | Limitar TIG abaixo de 5 mg/kg/min; aumentar proporção de lipideos |
| Hipofosfatemia | Fraqueza muscular severa, falha no desmame | Monitorar fósforo diariamente; repor agressivamente |
| Hipomagnessemia | Fraqueza muscular, arritmias | Monitorar e repor magnésio conforme laboratório |
| Déficit calórico acumulado | Desnutrição, sarcopenia, prolongamento da VM | Calcular e registrar adequação calórica diariamente |
| Sobrecarga hídrica | Edema pulmonar, redução da complacência | Balanco hídrico zero ou negativo; formulas hipercaloricas |
Referências Bibliográficas
- BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Critico Adulto. BRASPEN Journal, v.38, n.2, Supl 2, 2023.
- Singer P et al. ESPEN guideline on clinical nutrition in the intensive care unit. Clinical Nutrition, 2023. DOI: 10.1016/j.clnu.2023.01.011
- Prodiet Nutrition. Highlights BRASPEN 2023 - Congresso Brasileiro de Nutrição Enteral e Parenteral. Disponível em: prodietnutrition.com.br, 2024.
- Nutritotal PRO. Terapia nutricional no paciente critico - Diretriz BRASPEN. Disponível em: nutritotal.com.br/pro, 2023.
- Nutritotal PRO. Parecer BRASPEN sobre cuidados nutricionais em pacientes hospitalizados com COVID-19. Disponível em: nutritotal.com.br/pro, 2020.
- Sanarmed. Avaliação Nutricional do Paciente Grave e Equação de Harris-Benedict. Disponível em: sanarmed.com, 2024.
- Silva SRJ et al. Gasto Energetico. In: Waitzberg DL. Nutrição Oral, Enteral e Parenteral na Prática Clínica. São Paulo: Atheneu, 2018. p.315-326.
- UFRJ - Laboratório de Avaliação Nutricional. Calorimetria Indireta. Rio de Janeiro: INJC/UFRJ, 2023.
- IMeN. Perguntas mais frequentes em avaliação nutricional. Disponível em: nutricaoclinica.com.br.
- Souza TR, Rodrigues DLM, Queiroz NP. Indicadores de qualidade em terapia nutricional enteral em UTI. Rev. Cient. Esc. Estadual Saude Publica Goias. 2023;9(9b5):1-14.
- Silva JRP et al. Desmame da ventilação mecânica - revisão de literatura. Brazilian Journal of Development. 2023;9(5):17200-17215.
- Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecanica 2013. Jornal Brasileiro de Pneumologia, Supl. 2013.
- Righi NC et al. Efeito da posição prona na mecânica respiratória e nas trocas gasosas em pacientes com SDRA grave. Rev Med Minas Gerais. 2017.